Se o mundo fosse nosso outra vez: Rock in Rio como laboratório urbano

Nas últimas duas semanas uma parte da cidade do Rio de Janeiro se transformou em um laboratório: a experiência se chamou Rock in Rio (doravante RiR) e foi muito bem sucedida. Os resultados dessa experiência são, no entanto, menos importantes no momento; o que vale agora é perguntar: o que estava sendo testado?

O evento foi realizado em uma área considerada como um dos legados do Projeto Olímpico para a cidade do Rio de Janeiro: trata-se de um espaço amplo, entregue em tempo recorde e que se chama Parque dos Atletas. Segundo o site oficial de divulgação do projeto da cidade olímpica:

Primeira instalação olímpica a ficar pronta, o Parque dos Atletas faz sua estreia em eventos públicos de grande porte com a abertura do Rock In Rio. Durante sete dias, serão 108 atrações musicais. O Parque foi inaugurado oficialmente em 6 de agosto, a cinco anos do início dos Jogos Olímpicos da cidade. (clique aqui para acessar a nota na íntegra)

Talvez tenha passado desapercebidamente pelo leitor, mas há uma armadilha no parágrafo acima que revela um dos objetivos mais sutis e mais bem sucedidos da experiência RiR: a redefinição do significado de evento público. Ora, o espetáculo em questão trata-se de um festival de música dos mais avançados da contemporaneidade. Rock in Rio é uma marca de eventos que acontecem em diferentes tempos, em diferentes cidades (a definição do wikipedia é esclarecedora) e que reúne diferentes estilos musicais. Trata-se de um produto complexo, rentável, dinâmico e que funciona, pelo menos aqui no Brasil, segundo a lógica da parceria-público-privada onde o público produz toda a infraestrutura e o privado produz (e captura) todo o ganho. Mais uma vez o site Cidade Olímpica nos esclarece essa lógica:

Mas quem vê e se deslumbra com a grandiosidade da parafernália de som e luz e com os brinquedos montados no local [para o RiR] não imagina que, para que tudo isso pudesse ser real, foi construída uma não menos grandiosa infraestrutura, durante meses de obras da Prefeitura. (clique aqui para acessar a nota na íntegra)

No entanto, para além destas questões pontuais do evento, o fato de ele ser classificado como evento público pela própria prefeitura é que soa grave. Para se entrar no Rock in Rio gastou-se algo como R$ 130,00 por um dia de show e transporte (considerando, segundo me informaram algumas pessoas que foram ao evento, os R$ 95,00 da meia entrada e os R$ 35,00 do transporte exclusivo realizado por uma concessionária de serviço público – um preço 7 vezes mais caro que o transporte diário comum), sem contar a alimentação, bebida, etc. Ora, segundo o IBGE – Cidades@, o Produto Interno Bruto per capta do carioca era, em 2008, R$ 25.121,92, o que equivale a menos de R$ 70,00 por dia (sabe-se que o PIB per capta não equivale à renda diária de fato, mas é um dado importante para se ter uma idéia da produção de riqueza média da população), portanto, ir ao Rock in Rio não era, definitivamente, para qualquer um e nem para todos: este nunca foi, de fato, um evento público.

Esta constatação evidencia uma forte disputa simbólica pelo significado não apenas do que vem a ser evento público, mas também pauta uma outra disputa sobe o que vem a ser a produção e utilização de um espaço público. O Parque dos Atletas, espaço ultra moderno, especializado, amplo e de escala super-humana, não pode ser público caso se tenha como horizonte urbano o direito à cidade: espaço público deve ser acessível a todos; deve ser possibilitador de encontro com o diferente e não de reuniões entre iguais; espaço público deve possibilitar sua realização a partir de seu valor de uso e não segundo seu valor de troca; espaço público permite, além de sua função técnica a reunião política, o embate, a disputa. Para se esclarecer o quão distante disto está o Parque dos Atletas, o mesmo site de divulgação oficial do projeto olímpico escolheu publicar em sua nota uma fala sobre um possível futuro de exploração daquele espaço:

– O músico não deixa de ser um esportista. Aqui é um espaço diferente. Imaginar atletas nesse lugar, que pode ter quadra de tênis, piscina, sei lá… Tiramos o palco, equipamentos, e aqui pode virar qualquer coisa, um kartódromo, por exemplo – sonha o produtor. (clique aqui para acessar a nota na íntegra)

O produtor já imagina um uso nobre, um kartódromo, para o espaço “público” planejado e executado pelo poder “público” que utilizou dinheiro público para sua produção.

Por fim, para além de toda alegria e beleza que houve nos dias de festa, há que se entender o RiR de outra maneira. Deve-se estar atento para sua carga de barbárie. Há que se saber criticá-lo para além de seus shows e de seu sucesso (quase incontestável) enquanto evento pop. RiR demonstrou para a Organização Olímpica que é possível privatizar um espaço, privá-lo para uso de poucos (foi proibida a circulação na área do entorno do RiR durante os dias de show e seus moradores sofreram diversas restrições, por exemplo, a impossibilidade de receber visitas em suas casas), e, a partir de sua espetacularidade, legitimá-lo como se fosse para todos, como se fosse público, como se o mundo fosse nosso. O imaginário da utilização do espaço da cidade para as Olimpíadas foi conquistado pelo Rock in Rio, esta era a experiência, este era o teste: a utilização da cidade de modo privado para os jogos olímpicos é possível e, pelo que parece, desejável por milhares. A questão agora, portanto, torna-se outra: e se as Olimpíadas não forem ainda um projeto final? E se os JO 2016 também forem apenas um laboratório, uma experiência para a utilização total da cidade futura? Entender esta complexidade é urgente, pois um projeto de cidade está se consolidando e, neste projeto, cada vez menos parece haver espaço para o exercício do encontro.

Postado por: Cláudio Rezende Ribeiro

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Sobre Direito e Urbanismo

Grupo de pesquisa interinstitucional do PROURB-FAU-UFRJ que reúne profissionais das áreas do Direito e do Urbanismo.
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