Barcelona e os Jogos Olímpicos de 1992: construindo modelos

Seria Barcelona o modelo apropriado para ser utilizado por qualquer cidade, em nosso contexto, o Rio de Janeiro?

Recapitulando a postagem de algumas semanas atrás, é bastante pertinente recordar o post referente ao Rock in Rio sobre a utilização do espaço público como preparativo para a realização dos Jogos Olímpicos.

E, partindo do exemplo de Barcelona, também chamado modelo Barcelona, este urbanismo, fundado na transformação que a cidade passou em função dos Jogos Olímpicos de 1992, cabe fazer uma pequena análise já vislumbrando o caso da cidade do Rio de Janeiro e os seus Jogos Olímpicos de 2016.

Quando se faz referência ao legado que as Olimpíadas ou qualquer outro evento de grande magnitude possa deixar para uma cidade, o que se está levando em consideração? E quem para quem vai destinado esse legado?

O modelo de urbanismo proposto e realizado em Barcelona acarretou uma série de conseqüências com base em escolhas e decisões políticas, acertadas e equivocadas, evidentemente de resultados positivos e negativos. A grande crítica é de que somente os resultados positivos foram “vendidos” e Barcelona passa a ser um modelo. Entre estes resultados positivos está a criação de um número considerável de espaços públicos (considerando a tradição da cultura européia em valorizar e utilizar estes espaços), mas que também deixou muito a desejar no que tange à apropriação e utilização desses espaços por parte de seus moradores, os não-turistas. Muitas das alterações urbanísticas projetadas para a cidade foram pensadas por seu potencial como cidade de negócios, com valor econômico agregado, que promoveram Barcelona de maneira que hoje é uma das cidades mais visitadas na Europa e no mundo. Para alcançar este objetivo se partiu do que hoje se tem como algo relativamente novo, as parcerias público-privadas, mas que já há muitos anos é utilizado pelas Administrações Públicas. De fato, é uma alternativa para a falta de recursos do Poder Público local, de relativa fácil aplicação, mas que atualmente, em muitas cidades, passou a ser uma ferramenta utilizada somente como captador de fortes investimentos, por vezes internacionais, a fim de promover as cidades para mil e um eventos. Esta movimentação e fomento dos recursos públicos em parceria com a iniciativa privada para fins que na teoria deveriam beneficiar a sociedade envolvida contribuíram para que Barcelona dispusesse de uma excelente estrutura para acolher seus milhões de turistas, embora o conceito de direito à cidade talvez não esteja em seu total esplendor. Ainda existe significativa segregação entre bairros, como de imigrantes e de não imigrantes, importante distinção de zonas em função de poder aquisitivo e, inclusive, apesar de surpreendente, a falta de eqüidade na distribuição do transporte público.

Voltando às grandes transformações urbanísticas realizadas para os Jogos Olímpicos, o efeito mais imediato foi o significativo aumento no valor do solo e conseqüentemente dos imóveis. A classe média alta foi atraída para lugares que até então se caracterizavam como áreas tradicionais e proviam algum valor simbólico e cultural para a cidade, formando, assim, novas centralidades urbanas e gerando o fenômeno social conhecido como gentrification, que volta a estar em evidência, em razão da cada vez mais freqüente elitização de zonas ou bairros, justificados por grandes empreendimentos.

Para o geógrafo David Harvey, o que existiu em Barcelona e estamos suscetíveis de que aconteça no Rio, é a mescla entre o chamado urbanismo cidadão e o urbanismo globalizado. O primeiro, muito presente em cidades americanas e européias, também denominado de urbanismo do espaço público. O segundo, aquele que avassala as cidades contemporâneas, o modelo caracterizado pela estratificação social, pela urbanização baseada em áreas de excelência, em infra-estrutura viária, em micro-pólos industriais e tecnológicos.

Portanto, seria Barcelona um modelo ideal ou é somente um marketing urbano exitoso que à razão dos Jogos Olímpicos a cidade do Rio de Janeiro tem idealizado para suas propostas de transformação urbana?

Existe, em todo caso, uma inspiração em Barcelona que se dá devido à necessidade que muitas cidades possuem em encontrar experiências que lhes sirvam de exemplo. O problema está no fato de que as premissas que se configuram na capital catalã não são de todo exitosas e sua reprodução é censurável, pois na atualidade o urbanismo não necessita de modelos a seguir, senão de comparações, comprovações e de aprender com os próprios fracassos, também necessita de fórmulas alternativas para se poder alcançar muito êxito. O que existe é uma realidade local, uma conjuntura política, intelectual e social que necessariamente precisa estar conectada com as políticas urbanas e de projeção para o grande evento dos Jogos Olímpicos, a fim de evitar que se repitam os mesmos erros de determinados lugares e que se venha a dizer: “esse filme já vimos antes”!!

Referências:

HARVEY, David; SMITH, Neil. Capital financiero, propiedad inmobiliaria y cultura. Bellaterra: Servei de Publicacions de la Universitat Autònoma de Barcelona; Barcelona: Museu d’Art Contemporani de Barcelona, 2005.

Postado por: Gabriela Fauth

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Sobre Direito e Urbanismo

Grupo de pesquisa interinstitucional do PROURB-FAU-UFRJ que reúne profissionais das áreas do Direito e do Urbanismo.
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