Megaeventos e os Programas de Requalificação Urbana: o contraponto de Gênova

Gênova, cidade portuária, capital da província de mesmo nome, da região da Liguria, no norte da Itália, a quem devemos grande interesse por trazer à tona um ponto positivo nas suas últimas intervenções de requalificação urbana voltadas para o centro histórico e zona portuária: o incentivo à permanência da população local e sua consequente apropriação do mesmo.

É importante dizer, antes de tudo, que o porto medieval, com suas atividades mercantis e militares, é o que, de fato, fez de Gênova uma das grandes potências econômicas e navais da Europa. (GABRIELLI, 1992, p. 15) Sendo assim, toda a cidade se estruturou a partir dele e, durante séculos, foi o centro econômico e social de toda região. Depois de muitos altos e baixos, com o passar dos anos, e especialmente no século XIX, Gênova foi invadida por um conjunto de indústrias cujas estruturas foram largamente danificadas pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. E mais recentemente, nos últimos anos, foram perdidos mais de 90% de postos de trabalho no porto, o que culminou na considerável diminuição de atividades, total degradação de seus espaços e consequente redução do uso pela população local. O porto definitivamente se fechava, com muros e grades, dando as costas para a cidade (sobre o tema, conferir o documentário “Les Hommes du Port”, de Alain Tanner). Era essa a situação no início da década de 1990: o pouco que funcionava contava com espaços abandonados não transitáveis, carentes de manutenção e de obras de reparo, sem nenhuma relação com a cidade e o centro histórico ao seu redor, que também compartilhava dessas dificuldades, estava completamente desvalorizado.

A população que ali residia passou a ocupar a chamada “cidade nova” que se desenvolvia na direção das colinas. Em contrapartida, a redução dos valores dos imóveis atraiu os migrantes pobres do sul do país que viam (e ainda hoje veem) o norte como uma alternativa em termos de emprego. Nos anos 1980, o centro histórico era descrito como o espaço da criminalidade e das diferenças sociais causadas pelas diversas etnias nacionais (que carregavam seus dialetos e costumes peculiares) que conviviam no mesmo espaço.

Em meio a esses problemas socioeconômicos que se abateram sobre a cidade (também ocorridos em tantas outras cidades), Gênova buscou alternativas para reverter esse quadro lançando mão da realização de grandes eventos – como a Expo’ 92, em ocasião dos 500 anos da descoberta das Américas pelo navegador genovês Cristóvão Colombo; o encontro do G8 realizado em 2001; e Gênova Capital Europeia da Cultura, em 2004 – como impulsionadores de tantos outros programas que visam a requalificação urbana. A verdade é que, desde 1992, o centro histórico vem recebendo obras de urbanização, suprimento de moradia – construção, recuperação e subvenção do Estado para facilitar o acesso aos imóveis – e de serviços públicos, iniciativa de geração de emprego e renda, inclusão de edificações históricas na lista do patrimônio mundial, restauro do patrimônio arquitetônico e valorização do sistema de museus da cidade. (GAGLIARDI, 2011, p. 127)

Podem-se ver mudanças pontuais, como os pequenos comerciantes que reabriram suas portas, estimulados pela presença de turistas e pela permanência da população que ainda resiste. A apropriação daquele espaço vê-se no dia a dia, mas também, e principalmente, nos dias festivos, com a retomada da Sopraelevata (principal via da zona portuária) nas comemorações de acontecimentos históricos ou nas manifestações políticas que juntam milhares de pessoas. A Via San Lorenzo, por exemplo, uma das principais vias perpendiculares de acesso ao centro histórico pôde ser parcialmente fechada e destinada aos pedestres depois do reordenamento de tráfego e proporcionou nova vida às imediações impulsionando os pequenos comércios que ali existem.

De tudo que foi aqui exposto, não se pretende, de maneira alguma, defender a realização dos megaeventos como solução única para a cidade, mas trazer à tona um ponto positivo do qual se pode tirar proveito: a oportunidade de implantação também de outros programas e incentivos que complementem e amenizem as falhas e os problemas acima citados, ou, como neste caso, programas que estimulem a permanência dos moradores e pequenos comerciantes no local e que mantenham os benefícios de tais intervenções por um período ainda maior do que o ciclo de duração dos eventos, promovendo outros pequenos acontecimentos como shows, feiras, exposições, festivais etc. Gênova já conheceu o efêmero no quarto centenário colombiano, em 1892, pois se diz que as obras realizadas foram desperdiçadas na medida em que deixaram pouco legado à cidade. Parece ser este o principal desafio: recuperar as áreas de maior interesse fazendo com que os benefícios sejam duradouros, sem expulsar a população local, assegurando a funcionalidade e a gestão das obras realizadas.

Chegamos até aqui não para dizer que, no caso de Gênova, todos os problemas foram resolvidos. Com certeza não foram. Existem ainda mais desafios, como saber lidar com a complexidade dos novos problemas urbanos presentes, entre eles a extrapolada imigração, a necessidade de ocupação dos jovens e a falta de segurança (que podem ser assuntos de posts futuros). Mas por ora, olhemos para os pontos até então positivos dessa experiência, e busquemos questionar como esses objetivos parecem ter sido alcançados? As respostas não devem ser banais, nem definitivas.

Referências:

BLACKMAN, David J.; LENTINI, Maria C. Ricoveri per navi militari nei porti del mediterraneo antico e medievale. Bari: Edipuglia, 2010.

GABRIELLI, Bruno. La città nel porto. Torino: Nuova ERI Edizioni RAI, 1992, p.19.

Documentário “Les Hommes du Port”, de Alain Tanner

GAGLIARDI, Clarissa M. R. Um grande projeto entre o mar e as colinas: a renovação urbana da cidade italiana de Gênova. Cadernos Metrópole. v. 13, n. 25, pp. 13-143. Jan/jun 2011.

Postado por:  Marlise Sanchotene de Aguiar

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Sobre Direito e Urbanismo

Grupo de pesquisa interinstitucional do PROURB-FAU-UFRJ que reúne profissionais das áreas do Direito e do Urbanismo.
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