UM ANO NOVO PARA 1 BILHÃO DE SERES (MENOS) HUMANOS QUE OS OUTROS

Em texto anterior, destacamos o fato de atualmente já sermos 7 bilhões de seres humanos sobre o planeta terra e o quanto isso representa em termos de pressão sobre os recursos naturais, mas também em termos de oportunidade para o planeta e especialmente para as nossas cidades. Num momento como esse, início de um novo ano, em que o sentimento de recomeço, de esperança na vida e no mundo de maneira geral é mais realçado e como fiquei com honrosa tarefa de produzir esse pequeno e primeiro texto para o Blog em 2012, decidi dar continuidade a reflexão anterior, contudo destacando um aspecto que em alguns setores da sociedade é pouco tratado, mas que é assombroso para toda a humanidade: desse contingente humano, há um total que continua vivendo em condições desumanas, cerca de 1 bilhão de pessoas (é mais do que 5 Brasis) e simplesmente não vai sair dessa situação por meios próprios ou por algum truque de mágica, ao revés, é necessário uma ação solidária para superar essa mácula da humanidade como um todo.

Segundo reflexão do site do Worldwatch institute, em breve texto intitulado “The Forgotten 1 Billion”, de 22 de dezembro de 2011, há cerca de 1 bilhão de famintos no mundo, dos quais cerca de 500 milhões são crianças abaixo de 5 anos de idade, sendo que na África morre 1 (uma) criança a cada 6 segundos de fome. No Brasil, segundo relatório da ONU, a insegurança alimentar atingia 37,5% dos lares brasileiros em 2006 (variando entre 25% na região sul para 55% na região nordeste).

Como alternativa para essa catástrofe, inúmeras ONGs tem fomentado, dentro inúmeras outras estratégias, a utilização de alimentação caseira para o fornecimento dos nutrientes mínimos e assim impedir o pior para as crianças.

Contraditoriamente, o mundo desperdiça cerca de 1,3 bilhões de toneladas de comida por ano, da quais, cerca de 1/3 (um terço) são produzidas para consumo humano; sendo que, somente nos EUA, são desperdiçados cerca de 40 milhões de toneladas de alimentos por ano, o que seria suficiente para alimentar cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo, ou seja, o quantitativo daquelas famintas descritas anteriormente. Inúmeras ONGs mirando mitigar esse descompasso, trabalham ou para arrecadar alimentos e distribui-los a abrigos ou no desenvolvimento de alternativas para sua conservação, adotando o procedimento da desidratação, por exemplo, e posterior distribuição.

O mundo também possui aproximadamente 1 bilhão de pessoas que sofrem de deficiências de micronutrientes (incluindo vitamina A, ferro e  iodo). Entre 250 a 500 milhões com deficiência de vitamina A adoecem e metade morre, uma grande parte delas atingida, inclusive, por deficiência visual.  Segundo relatório da ONU, a desnutrição infantil (expressa pela diferença entre altura e idade), no Brasil, embora tenha reduzido no início deste século, ainda atingia cerca de 7,5% da população rural e 6,9% da população urbana (o que atualizado para números atuais significariam mais de 10 milhões de pessoas somente na área urbana).

Como alternativa para o enfrentamento da situação, ONGs trabalham não somente com frentes de distribuição de alimentos em si, como também em frentes que fomentam o processo de educação voltado para o uso de potencialidades locais em alimentos e manutenção de cultivos em fazendas comunitárias, por exemplo.

Mais um sinal de enorme contradição que paira sob nossa realidade, nesse início de 2012, o mundo possui cerca de 1 bilhão de pessoas que estão acima do peso, sendo que grande parte dessa população é considerada obesa, contribuindo para o aumento da incidência de doenças do coração, diabetes e artrites. Em torno de 2,8 milhões de adultos morrem por ano como resultado de excesso de peso ou obesidade. No México, por exemplo, há 19 milhões que sofrem de insegurança alimentar, sendo que 70% da população é considerada ou acima do peso ou obesa. Segundo relatório especial da ONU, essa monstruosa contradição é resultado de uma combinação que de um lado fomenta a cultura individualista e de outro uma agricultura voltada para a exportação, o que não é muito diferente do Brasil, que possuia cerca de 40,6% de pessoas acima do pesso e 11,1% de obesas.

Finalmente, nesse início de um novo ano, possuimos cerca 800 milhões de adultos que são analfabetos, atingindo fundamentalmente as regiões mais pobres do planeta. No Brasil, os dados do último censo registram uma taxa de analfabetismo de 9,6% (quase 19 milhões de pessoas), sendo que nas regiões de favela e entre jovens com 15 anos ou mais a média é de 8,4%. O problema se constitui em uma barreira praticamente intransponível para a superação da pobreza e para a melhoria produtiva (especialmente nas áreas rurais), através da incorporação de novas tecnologias e acesso à informação, por exmeplo.

Esses dados extraídos do site do Worldwatch institute, de um relatório especial para a ONU e ainda do IBGE (2010), demonstram que 2012 inicia mais uma vez com enormes contradições e com um contingente enorme de pessoas vivendo em condições subumanas (também aqui em nosso país). O relatório da ONU, muito embora reconheça significativos avanços que vem ocorrendo em nosso país a partir de 2002, aponta uma variedade de alternativas fundamentalmente focadas no reforço de políticas públicas já em andamento e no fortalecimento de instituições brasileiras de forma a propiciar o aprofundamento de ações do Estado brasileiro.

Contudo, problemas como esse – a despeito de serem o resultado de uma sociedade mergulhada na cultura individualista e num modelo produtivo voltado ao lucro e às demandas primordias dos seres humanos – não se resolvem apenas com leis, programas e reforço do Estado, é preciso maior envolvimento e real interesse pela vida das pessoas, ou seja, é preciso e imprescindível uma maior solidariedade. É preciso perceber que o problema da miséria, da fome, da indigência não é um problema apenas de políticas públicas, mas um problema que atinge a humanidade como um todo. Quando esse tipo de constatação permear nossas convicções, certamente que olharemos para os lados e perceberemos que muita coisa pode e deve ser feita individualmente.

Então, que 2012 seja realmente um grande ano para todos nós e muito especialmente para os 1 bilhão de esquecidos, porque se assim o for, certamente que nossas cidades serão bem melhores.

Referências:

ONU. Relatório do Relator Especial sobre o direito à alimentação (Relator Especial: Olivier De Schutter). Missão ao Brasil, 2009. Disponível em <http://www.srfood.org/index.php/en/documents-issued&gt;. Acesso em 02 jan 2012.

Worldwatch institute (Vision for a sustainable world). The Forgotten 1 Billion. 2011. Disponível em: < http://www.worldwatch.org/node/9427>. Acesso em 02 jan 2012

Postado por: Odair J. B. Freitas

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Sobre Direito e Urbanismo

Grupo de pesquisa interinstitucional do PROURB-FAU-UFRJ que reúne profissionais das áreas do Direito e do Urbanismo.
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