Nosso passado incomum: Benjamin não comparecerá à Rio+20

Está próxima a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, chamada Rio+20 que será realizada, como indica o nome, 20 anos depois do primeiro evento ocorrido no Rio de Janeiro, a ECO-92, considerado um evento paradigmático por ter, dentre outras coisas, consolidado a idéia de “desenvolvimento sustentável” e “sustentabilidade”. Foi a partir daquele momento que estas duas expressões entraram definitivamente no senso comum, foram incorporadas no vocabulário cotidiano e revelaram seu poder de alcance e sua maleabilidade. Pode-se considerar que atualmente todos compreendem o termo “sustentável” e que ele é, ao mesmo tempo, extremamente variável e, como é o termo da moda, resiliente. Tudo hoje em dia é, pode ser, ou deveria ser sustentável: telhados pintados de branco para economizar a mesma energia que foi usada para produzir a tinta; sacolas de papel produzido às custas de violência no campo e desmatamento intensivo; linhas de pesquisa acadêmica as mais diversas e não seria de se estranhar alguém que defenda a sustentabilidade da escravidão contemporânea; tudo deve ser sustentável no atual modelo de desenvolvimento.

Para além dessa barafunda que se tornou o conceito de sustentabilidade, o objetivo deste post é destacar outro aspecto que me parece importante em tempos que, provavelmente, trarão novos entendimentos e novo fôlego ao termo “sustentável” em função da importante cúpula já mencionada. Resgate-se, pois, o conceito original de “desenvolvimento sustentável” construído pelo Relatório Bruntland – “Nosso futuro Comum” – não porque seria este a pureza da idéia que deverá ser retomada e compreendida de forma plena e legítima como, é provável, muitos bradarão: “temos que retomar as origens do conceito de desenvolvimento sustentável!”. Muito pelo contrário, é exatamente por acreditar que neste mesmo conceito original já havia algo que merecesse ser criticado que tento me adiantar a uma possível nostalgia conceitual. Vejamos o conceito que ficou consagrado e que gerou uma nova forma de olhar para o desenvolvimento a partir da crítica ecológico-ambiental: “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.” (conferir este conceito aqui)

Este conceito, por um lado, há que se reconhecer, trouxe novo fôlego, por exemplo, para o debate urbano ao incorporar novas críticas ao cenário pós-moderno de então, chamando a atenção para a necessidade de se ampliar a noção de meio ambiente urbano de forma a repensar o próprio planejamento e desenho das cidades.

Mas visto com o devido afastamento histórico, ele carrega um poder que o faz disputar com o “fim da história” de Fukuyama o título de mais influente teoria da década de 90. Talvez a “sustentabilidade” seja mais poderosa e dominante que a outra hoje em desuso depois, principalmente, dos reflexos das crises de 2008. Mas sua predominância não se dá apenas pela fraqueza da tese liberal de Fukuyama, mas por carregar consigo uma faceta que a eleva à categoria próxima de uma ideologia, por representar uma força de poder simbólico capaz de fazer com que o “fim da história” seja encarado como um “mero” recorte da sustentabilidade… Dito de outro modo, ao contrário do senso comum, podemos especular que não foi a tese liberal de que a história havia alcançado seu fim a metanarrativa predominante dos anos 90 capaz de mover corações e mentes de maneira central, pelo contrário, talvez devêssemos começar a considerar o oposto: o fim da história seria o caso particular que estaria contido na tese da sustentabilidade.

Especulo sobre isso para alertar sobre os riscos (aqui sem nenhuma ironia de termos) de se entregar de forma cega à idéia da sustentabilidade. Ora, o relatório Bruntland, cujo nome oficial é “Nosso Futuro Comum” consolidou a idéia de que devemos pensar em uma maneira de desenvolvimento que garanta a manutenção das gerações futuras. Assumindo que o futuro está ameaçado deveríamos, enquanto comunidade global, resolver o problema daqueles que nos sucederão, garantindo sua sobrevivência em um mundo pautado na lógica de recursos finitos. Para isso deve-se, por exemplo, ao assumir a finitude destes recursos naturais, ampliar o alcance sistêmico da economia como regulação da vida, estendendo-a definitivamente rumo à natureza para garantir a transmissão mais eficiente de seus usos para o futuro (futuro sempre no singular, já que o nosso futuro deverá ser comum).

Esta visão da história que garante, ou exige, um futuro comum exige também a necessidade de um presente uno que só poderá existir, paradoxalmente, se não houver mais história. Junto com esta idéia, está também um reflexo do pensamento utópico que acredita haver uma solução definitiva para o mundo que, ao ser alcançada, se estabilizaria, congelando as transformações e, mais uma vez, garantindo um futuro que pode ser programado desde o presente que programa como as próximas gerações deverão viver. O caso atual da Grécia é um bom exemplo de aplicação desta lógica de maneira diferente do que se propaga. As gerações futuras da Grécias estão reféns das decisões tomadas em seu nome pelas gerações atuais: eis um bom exemplo não dito do que pode vir a representar a sustentabilidade como ideologia.

Não sei quanto às gerações futuras, mas tudo que não desejo dos meus antepassados é que eles forjem meu modo de vida contemporâneo, não espero de meus antepassados a garantia de que eu possa viver segundo as regras de seu mundo e, da mesma maneira, não desejo para as próximas gerações garantia alguma de futuro pois acredito, inclusive, que há muitos futuros diferentes e que eles seguem em constante transformação…

Mas minha crítica ao “nosso futuro comum” não reside unicamente, nem centralmente, na relação com aquilo que virá, mas com aquilo que foi. Minha preocupação é com o passado como o título deste post anuncia. Meu maior receio em relação às soluções pautadas de forma predominantemente sustentável é que para esta narrativa social não há lugar para o passado enquanto elemento alimentador de transformações. Não há e não pode haver. Vejamos por que: a sustentabilidade altera a forma da relação temporal ocidental fundadora da modernidade, ao invés de aprendermos com nosso passado, devemos “ensinar” ao nosso futuro. Mais uma vez a economia (que Zizek corretamente tem apontado como a ideologia contemporânea) atravessa o campo social e dita as regras tiranizando a história e transformando-a em um simulacro da bolsa de valores que, como sabemos, baseia-se no comportamento do mercado de futuros…

Assim, de forma sutil, a “sustentabilidade” altera a relação histórica de modo a garantir que o que será durável deve ser, de fato, o desenvolvimento, tido aqui como algo próximo do que Benjamin chama de progresso:

[…] O anjo da história tem de parecer assim. Ele tem seu rosto voltado para o passado. Onde uma cadeia de eventos aparece diante de nós, ele enxerga uma única catástrofe, que sem cessar amontoa escombros sobre escombros a seus pés. Ele bem que gostaria de demorar-se, de despertar os mortos e juntar os destroços. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se emaranhou em suas asas e é tão forte que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, para o qual dá as costas, enquanto o amontoado de escombros diante dele cresce até o céu. O que nós chamamos de progresso é essa tempestade. (BENJAMIN, apud, LOWY, 2005, p.87)

Do desenvolvimento sustentável à sustentação do desenvolvimento, eis o caminho a ser evitado. Tudo que ocorre sob a égide do “futuro comum”, portanto, é justificado em nome da salvação de uma geração futura e em sacrifício de inúmeras gerações passadas. Ora, Benjamin nos alerta para a importância de “escovarmos a história a contrapelo”, dentre outros motivos, para garantirmos o entendimento de que existem diversos passados incomuns, existem diversas formas diferentes de se enxergar a história e estas formas são capazes de trazer à tona lutas presentes que realizarão a conexão do contemporâneo com seu antecessor no próprio conflito social, redimindo a luta a partir de sua afirmação, a partir de seu reconhecimento. Reconhecer passados incomuns garante que haverá disputas por futuros também incomuns. O movimento histórico benjaminiano nos ajuda a compreender que a justiça batalhada pelos antepassados, deve ser mantida e ampliada com novas derrotas no presente e no futuro. Derrotas estas que transformarão o passado em vitorioso pela permanência viva da própria luta pela transformação.

Já considerando o longo post que quase se transforma em artigo, encerro reiterando que o campo de saber que orbita em torno da “sustentabilidade” conseguiu sacudir o pensamento social, conseguiu chamar a atenção para novos elementos e processos urbanos, espaciais, econômicos, ambientais. Mas há que se ficar atento ao lembrete de Benjamin sobre a tirania da tempestade do progresso sobre o anjo da história, aquele vento forte que não permitia que o anjo fechasse suas asas para auxiliar os derrotados, injustiçados do passado, pois a sustentabilidade não só mantém a tempestade forte, mas vira o rosto do anjo: seus olhos são voltados para o futuro. Mas nosso futuro não é comum, não pode sê-lo porque nosso passado é incomum, assim, a história não terminou e a natureza não vai substituir a cidade.

REFERÊNCIAS:

LOWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005.

Postado por: Cláudio Rezende Ribeiro

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Sobre Direito e Urbanismo

Grupo de pesquisa interinstitucional do PROURB-FAU-UFRJ que reúne profissionais das áreas do Direito e do Urbanismo.
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