A racionalidade e o novo Maracanã

Quem vivencia o espaço do Rio de Janeiro nos dias atuais começa a observar diversas mudanças que estão ocorrendo na sua configuração, e são os eventos esportivos que serão sediados pela cidade os seus principais catalizadores. É necessário reforçar que a transformação e a renovação são características intrínsecas à cidade, não só por parte das instituições que oficialmente administram-na, mas também por parte de todos os que vivem e produzem, habitam, moldam e ressignificam seus espaços. Entretanto, o que será colocado em questão aqui serão as mudanças que ocorrem hoje nessa cidade e que não são moldadas pelos seus habitantes, mas conduzidas por interesses e lógicas que não atendem (e não pretendem atender) às suas demandas e aos seus desejos.

Dentre elas, destaca-se a reforma que foi feita no Maracanã, o estádio carioca mais tradicional. O Brasil sempre foi conhecido por ser o país do futebol e o Maracanã era um dos símbolos que reforçavam esta identidade. O estádio, mesmo quando segregava os frequentadores por classe social e econômica, era um local acessível às classes mais baixas. Era possível comprar ingressos para arquibancada ou para a geral por pequenos preços e os mais pobres podiam frequentá-lo. Já o “novo Maracanã” sofre um processo de elitização: os ingressos ficaram mais caros e as alas populares foram praticamente extintas. O povo já não tem condições de ir a um jogo restando assim assisti-lo, cada vez mais, pela TV paga.

Os cariocas que iam ao “Maraca” fazer festa nas arquibancadas terão que “reaprender” a torcer sentados, comportados, sem batucada ou apenas assistindo pela televisão. Apenas o público que se identifica com uma forma internacional, padronizada, de torcer poderá usufruir desse futebol. Assim, o esporte passou para o segundo plano e o dinheiro assumiu o papel principal na história.

Para compreender de forma mais complexa os fenômenos espaciais recentes da cidade do Rio de Janeiro, a teoria de Milton Santos possui ferramentas importantes… Por exemplo, ela permite observar que essa nova espacialidade é resultado de um investimento global do mercado de capitais sobre o nosso território. Essa forma de produção de espaço submete a espacialidade do Rio – que possui especificidades culturais – aos preceitos do que este autor chama de “pensamento único”: visão de mundo unívoca, formulada e reproduzida pelos principais atores e agentes econômicos globais que penetra nos espaços e modifica os hábitos consolidados em diferentes territórios:

“As empresas apenas têm olhos para os seus próprios objetivos e são cegas para tudo o mais. Desse modo, quanto mais racionais forem as regras de sua ação individual tanto menos tais regras serão respeitosas do entorno econômico, social, político, cultural, moral ou geográfico, funcionando, as mais das vezes, como um elemento de perturbação e mesmo de desordem.” (SANTOS, 2008, p. 85)

A concessão do Maracanã para a administração de empresas privadas é apenas um dos vários exemplos da ação do investimento do capital em nosso território, que acarreta não apenas a privatização de espaços antes públicos como também impõe regras que se estruturam de forma tal que, “quanto mais racionais”, melhor.

A concepção de “razão” ou “racionalidade” é recorrente na obra do autor, que a define como sendo o pensamento da rapidez, da produtividade e do consumo, reproduzido cada vez mais intensamente. Esta forma “racional” de conceber as coisas, que se mantém a partir da atuação dos meios de comunicação e da publicidade (principais parcerias das grandes empresas que regulam as ações econômicas do mundo), começou a influenciar de maneira mais intensa o espaço no presente contexto do Rio de Janeiro, “adequando-o” a uma cultura alheia à local a partir do momento em que um “mundo” (e o mercado, principalmente) voltou seus olhos para este território.

Estes agentes globais também se representam localmente de forma complexa. Por exemplo, a cultura do futebol presente no Brasil e no Rio possui uma identidade única em nosso país que é reconhecida internacionalmente, no entanto, o fato de o governador Sérgio Cabral declarar que em “países civilizados” “estádio não é coisa de governo” confirma a predisposição da gestão estatal em conformar o nosso território dentro das exigências dos macroatores globais, que são os que ditam este sistema perverso da globalização de nosso contexto.

Ainda assim, há a movimentação dos que se opõem a esta intervenção “racional”, e que promovem atividades sobre esses acontecimentos: debates, manifestações e discussões acerca dessas mudanças. Essa movimentação é fruto do que Milton Santos concebe como sendo as “contra-racionalidades”, que são outras formas de viver e pensar esse nosso espaço, não estando atreladas (e no caso, se posicionando contra) a essa “razão” global.

 REFERÊNCIAS

 SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. 16ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.

 Postado por Johanna Weglinski e Giulia Panno

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Sobre Direito e Urbanismo

Grupo de pesquisa interinstitucional do PROURB-FAU-UFRJ que reúne profissionais das áreas do Direito e do Urbanismo.
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Uma resposta para A racionalidade e o novo Maracanã

  1. Eloisa Araujo disse:

    Excelente reflexão!
    A reboque da contribuição de Milton Santos….
    A vez do “Maracanã” …e também do bairro do mesmo nome.

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