Sobre nossas cabeças

“Se pudéssemos de alguma forma mapear a circulação do capital que ocorre em diferentes lugares ao redor do mundo, então o quadro seria algo parecido com as imagens de satélite tiradas do espaço que dão conta dos sistemas meteorológicos que rodam por cima dos oceanos, montanhas e planícies do planeta. Veríamos a ressurgências de atividades aqui, zonas de calmaria por lá, redemoinhos anticiclônicos em outro lugar e depressões ciclônicas de várias profundidades e tamanhos em outros lugares. Aqui e ali, tornados rasgariam a terra e em certos momentos tufões e furacões correriam pelos oceanos, representando perigos iminentes para os que estiverem em seu caminho. Chuvas refrescantes esverdeariam as pastagens, enquanto secas em outros lugares deixariam uma terra marrom arrasada. (…) Mas a observação e análise cuidadosa revelam padrões no caos.”

Harvey (2011, p. 127)

Se há “padrões no caos” (Harvey, 2011), é possível encontrarmos padrões no papel da produção e gestão do espaço construído nos processos de reprodução e acumulação do capital. As cidades são verdadeiras locomotivas destes processos. A produção do espaço e a urbanização dos territórios associam a ação estatal ao capital privado em uma estratégica parceria na criação de demandas e na ampliação de fronteiras em um movimento perpétuo. A ação do capital sobre as cidades as modificam, elege áreas em detrimento de outras, ora estigmatiza uma região, ora desestigmatiza outra – e em geral torna a vida mais cara.

A partir da metáfora meteorológica de Harvey (2011) para o capital como algo que paira sobre o globo e que a partir da ação humana cria um padrão de tempestades e calmarias, é possível identificarmos os rebatimentos desta “nuvem” sobre a dimensão espacial – sobre as cidades.

As cidades brasileiras, as cidades da exaltada “quinta maior economia do planeta” figuram hoje na linha de frente das rotas de investimentos. Estamos com a “nuvem” sobre nossas cabeças e precisamos saber o que fazer com ela. Os problemas são diversos e atingem vários setores da sociedade. Enquanto isso, territórios urbanos são transformados, as franjas das cidades se expandem, torres e equipamentos anônimos são erguidos, a crise da mobilidade se agrava e tudo parece dar continuidade à monótona experiência estética e espacial da cidade capitalista.

Se o Estado não parece ser capaz de dar conta daquilo que paira sobre nós, se parece abrir mão de seu papel regulador e passa a operar de forma ágil no fomento do processo de acumulação – as pressões que se colocam se materializam na nossa frente, forçando-nos a enxergar ou a nos resignar. O que é mais sombrio é que em tempos de globalização, as forças dos muros, da segregação e da privatização do espaço público perderam a gota de pudor que lhes restavam (ao menos aquele resultante do exercício da regulação estatal), cobrindo-nos literalmente com o capital privado, como se já não bastassem os viadutos que entregam parte do espaço aéreo das cidades ao transporte privado.

Recentemente, um centro de compras localizado na cidade de Resende (interior do Estado do Rio de Janeiro), o Resende Shopping, construiu uma ligação projetada sobre a via pública a fim de conectar seu edifício em funcionamento a sua expansão localizada no outro lado da rua. Neste caso, não há nada de novo em termos de eficiência para aquilo que se reconhece como uma boa estratégia de negócio. Ao escrever sobre o histórico da arquitetura dos centros de compras, o grupo Harvard Project on the City (2000) identifica na escada rolante o grande advento de horizontalização do espaço expositivo das vitrines, dotando o percurso do indivíduo-consumidor de uma desorientada e confortável continuidade. A ligação do centro de compras de Resende parece radicalizar este conceito ultrapassando os limites antes impostos pelo arruamento.

Fonte: Reprodução adaptada e traduzida pelo autor da ilustração do grupo Harvard Project on the City (2000, p.137), 2013.

Fonte: Reprodução adaptada e traduzida pelo autor da ilustração do grupo Harvard Project on the City (2000, p.137), 2013.

Fonte: Acervo do Autor, 2013.

Fonte: Acervo do Autor, 2013.

Fonte: Acervo do Autor, 2013.

Fonte: Acervo do Autor, 2013.

Ligações aéreas sobre logradouros não configuram necessariamente uma novidade. Um importante centro de compras da cidade de Niterói (região metropolitana do Rio de Janeiro), o Plaza Shopping e outro em São Paulo, o West Plaza Shopping, já as utilizaram como estratégia de horizontalização e continuidade do espaço, sendo que no segundo exemplo, as passarelas ligam três distintos blocos do mesmo edifício comercial. Outros exemplos deste tipo de prática são encontrados nas cidades sul africanas pós-apartheid, quando empreendedores privados cruzaram passarelas aéreas entre edifícios de escritórios em áreas centrais de negócios de cidades como Johanesburgo, como forma de se movimentarem evitando o solo tomado pela violência gestada pela elite branca em décadas de segregação institucional. Descolamento, segregação e eficiência se combinam e as passarelas coroam uma intencional atitude de construção de uma nova pureza (Bauman, 1998) desgarrada da cidade, conectada a ela somente pelas portas de acesso ou pela entrada e saída dos automóveis.

Contudo, se horizontalização e continuidade dão semelhança aos casos de Niterói, São Paulo, África do Sul e Resende, os três primeiros se distinguem do último pela escala do objeto edificado e por ainda viabilizarem algum nível de contato com o meio externo, posto que suas estruturas configuram apenas dutos de transferência de um bloco para outro e que seus fechamentos são executados em vidro, o que oferece ao indivíduo-consumidor algum contato visual com o meio externo no momento da passagem, rompendo brevemente a angustiante desorientação espacial típica destes edifícios. No caso de Resende, o que parece mais grave é o fato de que a ligação é realizada através de um hermético espaço edificado sobre a rua no qual se localizam lojas e circulação. Irônico ou esquizofrênico, para não dizermos que se trata de uma massa de espaço comercial totalmente bloqueada ao meio externo, foram projetadas pequenas claraboias para a penetração da luz natural no interior da circulação e fixadas fotografias que reproduzem vistas da cidade – sobre e na dimensão dos tapumes que serão substituídos pelas vitrines das novas lojas – um belo trabalho fotográfico do sítio da cidade somado a uma sequência de imagens que enaltece a evolução do andamento da execução da obra do objeto que a nega.

Símbolos de força e arrogância da cidade capitalista se sustentam sobre frágeis alicerces e sob nuvens passageiras. Para Baudrillard (2003), a queda das torres gêmeas do World Trade Center de Nova Iorque em 2001 coloca em primeiro plano uma destruição simbólica que se segue da física, como se aquilo que encarnava o poder, o emblema, a imagem da potência, não se suportasse mais e ao invés de ser destruído, simbolicamente se suicidou. O que pretendemos é incitar à reflexão sobre o que vem sendo feito nas cidades brasileiras no momento em que o entorpecimento coletivo da sensação de que “chegou a nossa vez” parece não dar conta de que as nuvens passam. Olhar para o passado e observar o presente, lembrar torres desmoronando, a Grécia e Espanha dilaceradas, são importantes exercícios para tentarmos evitar práticas suicidas que cheguem às vias de fato quando esse Zeppelin que nos sobrevoa partir, ou quando explodir sobre nossas cabeças.

Referências bibliográficas

BAUDRILLARD, Jean. Power inferno. Porto Alegra: Editora Sulina, 2003.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

CHA, Tae-Wook; CHUNG, Chuihua Judy; GUNTER, Jutiki; HERMAN, Daniel; HOSYA, Hiromi; LEONG, Sze Tsung; MATSUSHITA, Kiwa; MCMORROUGH, John; CASADO, Juan Palop; SCHAEFER, Makus; VINH, Tran; WEISS, Srdjan Jovanovich; WYMAN, Louise – Harvard Project on the City Group. Shopping. In: KOOLHAAS, Rem. Mutations. Barcelona: ACTAR, 2000.

HARVEY, David. O enigma do capital e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011.

Postado por: Wagner Barboza Rufino

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Sobre Direito e Urbanismo

Grupo de pesquisa interinstitucional do PROURB-FAU-UFRJ que reúne profissionais das áreas do Direito e do Urbanismo.
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4 respostas para Sobre nossas cabeças

  1. Anônimo disse:

    Muito bom Wagner! Colocar fotos da cidade na parede fechada sobre ela é o cúmulo mesmo! Onde isso vai parar? Ou quando vai mudar?…

  2. Tatiana Cotta disse:

    Não sou anônima, sou a Tatiana! 🙂

  3. Anônimo disse:

    Tecer conexões das ações particulares e localizadas – aparentemente descompromissadas e, na maioria das vezes sem consciência de seus executores – com o universo de poder transescalar a que estão submetidas, parece ser um dos caminho para desalienação. Ao menos no meu entender, humildemente, e nisso parece que concordamos. Que bom….
    Julieta

  4. Anônimo disse:

    O espaço público só é tomado com este traçado, porque o mesmo poder que deveria selar pela sua utilização ordenada, planejada em igualdade de direitos, não o faz e quando o faz é tendencioso para o poder econômico mais forte, os investidores…….
    O crescimento das ocupações desordenadas em todos os níveis está dentro deste conceito que dá ao poder público doar espaço, ocupados e não respeitar o plano urbano que é criado ao longo de décadas.

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