Ilha Pura (!)

Parece ocorrer uma superação das expectativas acerca dos limites dos processos de segregação socioespacial nas cidades brasileiras. A discussão acadêmica sobre o problema do enclausuramento das classes médias e altas em condomínios fechados, embora não se trate de uma novidade, se mantém sobre a mesa como questão atual e relevante. A novidade talvez esteja na apropriação de um vocabulário corrente na problematização sobre as origens e consequências desta forma de produção do espaço justamente por parte daqueles que a produzem e comercializam.

De forma clara, irônica ou até inconsciente, um novo empreendimento imobiliário da Cidade do Rio de Janeiro foi recentemente lançado com o quase auto evidente nome de Ilha Pura. Localizado no Bairro da Barra da Tijuca, no entorno da área onde se implanta parte importante das instalações para a realização das Olimpíadas de 2016, trata-se de um projeto que contemplará uma área de 800 mil metros quadrados, na qual será implantada em distintas fases uma série de condomínios fechados em uma rarefeita ocupação do solo. O projeto da primeira fase do empreendimento contempla aproximadamente 33% desta área, onde serão edificados 31 edifícios distribuídos em 7 condomínios, totalizando a produção de um estoque residencial de 3.604 apartamentos, os quais primeiramente abrigarão os atletas participantes das Olimpíadas, e que em seguida serão entregues a seus compradores.

O nome do empreendimento introduz o discurso publicitário que o reitera. Frases como “Um bairro que já nasce pronto”, “Um lugar feito para o melhor da vida acontecer” e “Uma verdadeira cidade sustentável” buscam cumprir de maneira bastante evidente o papel sedutor a que se propõem, a exemplo do que afirma Caldeira (2000, p. 264 e 265):

Os anúncios usam um repertório de imagens e valores que fala à sensibilidade e fantasia das pessoas a fim de atingir seus desejos. (…) Anúncios imobiliários constituem uma boa fonte de informação sobre os estilos de vida e os valores das pessoas cujos desejos eles elaboram e ajudam a moldar. (…) Os anúncios apresentam a imagem de ilhas para as quais se pode retornar todos os dias para escapar da cidade e para encontrar um mundo exclusivo de prazer entre iguais.”

A situação se agrava ao refletirmos sobre as contradições deste espaço como lugar de moradia temporária de atletas provenientes de diversas partes do globo, ao observá-los como supostos principais atores do evento, de uma também suposta celebração da diferença, da confraternização e da tolerância através do esporte.

Neste sentido, a heterogeneidade e variedade – bases da consagração da beleza da cidade para Cacciari (2010) – se veem traídas por um ideal de pureza que naturaliza a típica e espacializada divisão entre ricos e pobres no Brasil. Os que podem pagar seguem em rota de fuga da diversidade da cidade em direção aos seus espaços entre iguais, inebriados pelo status e pelo entendimento do espaço intramuros como limpo (ou puro), avesso do extramuros “poluído, perigoso, sujo e indesejável”. Contudo, os equívocos não cessam e há um engodo na exaltada sensação de segurança, como aponta Bauman (2005, p.45):

O impulso para uma comunidade de semelhantes é um sinal de retirada. (…) A atração que uma comunidade de iguais exerce é semelhante a de uma apólice de seguro, contra riscos que caracterizam a vida cotidiana em um mundo multivocal, não é capaz de diminuir os riscos e menos ainda de evitá-los.”

No que se refere ao que se propõe por sustentável, coloca-se em questão a construção de um conjunto de edifícios a cerca de 35 quilômetros de distância do centro da cidade e suficientemente afastados dos principais centros de trabalho da região, de maneira a reproduzir a nociva dependência do automóvel e promover mais uma sobrecarga ao frágil sistema metropolitano de mobilidade. Em contrapartida, são oferecidas áreas de uso comum com muito espaço, serviços, câmeras de vigilância, amenidades e facilidades quase sempre subutilizadas pelos moradores. Verdadeiros parques aquáticos apoiados em grossas lajes de concreto simulam uma atmosfera paradisíaca, e via de regra se sobrepõem a enormes estacionamentos. Pode-se imaginar os artifícios e a energia empregada na recirculação e manutenção da limpeza de toda essa água.

Os preços dos imóveis e os custos de funcionamento de todo o aparato que os cercam seleciona e segrega. O Ilha Pura se assemelha a uma concretização da utopia modernista às avessas. Torres isoladas em meio a espaços verdes de contemplação, lazer e socialização foram cercadas e controladas em prol da seleção, segurança e garantia do bem-estar entre iguais.

Referências bibliográficas

BAUMAN, Zygmunt. Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

CACCIARI, Massimo. A cidade. Gustavo Gilli: Barcelona, 2010.

CALDEIRA, Teresa P. do Rio. Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34/Edusp, 2000.

Postado por  Wagner Barboza Rufino

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Sobre Direito e Urbanismo

Grupo de pesquisa interinstitucional do PROURB-FAU-UFRJ que reúne profissionais das áreas do Direito e do Urbanismo.
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