Sobre o rio de lama e os moradores de Bento Rodrigues

Ainda estarrecidos diante do rio de lama que escorreu do coração das Minas Gerais rumo ao Oceano, resultado do rompimento de duas barragens de rejeitos de mineração, permanecem, até o momento, dois fortes sentimentos: de reverência e de indignação.

Indignação frente a esse “desastre”. Desastre que reflete de forma direta as consequências do modelo de desenvolvimento que adotamos e perseguimos, adotando uma postura que naturaliza os fatos, omitindo e escamoteando diversas faces dessa controversa realidade.

Reverência diante do sofrimento – da natureza e das pessoas. Sofrimento de uma comunidade de seiscentas pessoas, especificamente, moradores de um pequeno e bucólico lugarejo, que até alguns dias atrás encontrava-se escondido e esquecido, invisível. Que dádiva aquela invisibilidade! Hoje, sua visibilidade significa a ruína, a transformação brutal de rotinas, o abandono de tradições, o desconhecimento do cotidiano que os espera no futuro – em alguns minutos a construção de gerações se arruinou, sem aviso nem sirenes.

Mas, para essas pessoas, o que significará perder todas as referências territoriais, do lugar construído e herdado, tragado pelas ondas furiosas de um rio de lama? Lama que até aquele momento significava o rejeito da atividade que alimentava e dava oportunidade de trabalho para muitos moradores. Mas que subjugou e destruiu vidas, numa tragédia de inconteste dureza.

Decorridos alguns dias do acontecido, as vítimas estão acomodadas em pousadas ou hotéis ou em casas de parentes em algum local próximo, recebem donativos de pessoas sensibilizadas pela situação. Dentre todas as questões que deverão ser tratadas neste caleidoscópio de problemas, uma nos salta aos olhos – que destino terá esta comunidade de Bento Rodrigues, unida por laços familiares, sociais, de memória, territoriais, de vizinhança?

Soluções como indenização caso a caso, relocações em locais diversos no próprio município de Mariana ou redondeza, não respondem à necessidade de retomar seus vínculos afetivos comunitários, de refazer seus afazeres coletivos, de convivência, de trabalho, de lazer, enfim, de suas referências culturais.

Está em pauta a reconstrução do lugarejo, no mesmo lugar. Entretanto, parece uma hipótese remota, uma vez que resta grande volume de lama depositada, endurecida, contaminada.

Como no filme “Narradores de Javé”[i], a comunidade de Bento Rodrigues encontra-se às voltas com a perda do lugar, das referências culturais coletivas e individuais, da memória que habitava as construções, que mantinha os hábitos cotidianos, que alimentava as tradições. No processo de elaboração do Plano Diretor Urbano Ambiental de Mariana[ii], em 2002, os representantes de Bento Rodrigues declararam em audiência pública que consideravam “a tranquilidade, a segurança e a harmoniosa convivência os melhores aspectos” daquele lugar.

Não basta que tenham novas casas, em novos lugares, supridos de toda infraestrutura necessária. É imprescindível que tenham seus direitos garantidos àquela cidade que não existe mais, mas que ainda mantém os laços invisíveis da convivência, da memória, do cotidiano. É preciso que essas pessoas sejam ouvidas, por meio dos mais diversos mecanismos de escuta, uma vez que a fala, talvez, não consiga explicitar os desejos, os medos, os anseios, as expectativas frente a este futuro completamente incerto.

Afinal, ao construir um novo lugar, uma nova vila, jamais se reconstituirão suas “rugosidades”[iii], características que valorizavam a historicidade que expressava e estava contida na espacialidade, que unia tempo e espaço, que embasava a memória coletiva daquela população.

“A gente era uma cidadezinha danada de bonita. Com direito a praça, igreja, escola. Namoro na rua, amigos no bar. Éramos uma família. Hoje somos luto porque o que tínhamos aqui dinheiro do mundo nenhum vai nos dar de volta. (…) Conhecíamos todo mundo, cada canto, cada lugar. É incrível como uma cidade que por tanto tempo foi a nossa casa simplesmente desapareceu no meio da lama”. 

Altieri Caetano[iv]

Porque se importar com as memórias desta população, seja do passado cuja materialidade se arruinou, seja com aquela que se iniciou na tragédia e se conformará no novo território, deve ser considerado no processo de decisão da forma e em que lugar serão reassentadas estas pessoas e, ainda, que sejam eles os principais agentes de decisão.

O dano ambiental é e se mostrará enorme, sem sombra de dúvidas! A leitura da estratégia política de encaminhamento das consequências deste “desastre” rouba as atenções. A (im)permanência das centenas de empregos gerados pela atividade angustia os interessados diretos e, de forma contundente, os Municípios afetados. Diante de tantas questões de grande vulto, pode ser que o futuro destas seiscentas pessoas seja decidido como um fator menor, de solução simples e simplória. Seria impiedoso! Fiquemos atentos aos rumos dados a esta questão!

capela sao bento

Praça que abrigava a Capela de São Bento. Acervo: Gratiae Urbs Consultoria. Jul. 1999

Samsung Techwin

Rua de Bento Rodrigues. Acervo: Gratiae Urbs Consultoria. Dez 2005

 

Vista da lateral da Praça da Igreja. Acervo: Gratiae Urbs Consultoria. Dez. 2005

Vista da lateral da Praça da Igreja. Acervo: Gratiae Urbs Consultoria. Dez. 2005

[i] Direção de Eliane Caffé, 2004, Brasil.

[ii] Dado tirado do Diagnóstico Participativo do Plano Diretor Urbano Ambiental de Mariana, PMM, 2002.

[iii] Terminologia criada por Milton Santos e utilizada por Ana Clara Torres Ribeiro, que apresenta rugosidade como aquilo que se refere “à concepção do espaço como acúmulo de tempos, ou seja, enfrenta os enigmas teóricos relacionados à indissociabilidade entre espaço e tempo”, (…) como “uma propriedade inerente do espaço herdado, do espaço banal e do território usado”. In: RIBEIRO, Ana Clara Torres. Homens lentos, opacidades e rugosidades. In: Rebodra, Salvador: UFBA, nº 9, abr. 2012. p. 58-71.

[iv] Depoimento do morador Altieri Caetano à reportagem do Hoje em Dia, em matéria publicada em 06/11/2015, http://www.hojeemdia.com.br/horizontes/era-uma-cidadezinha-danada-de-bonita-hoje-somos-luto-relata-morador-de-bento-rodrigues-1.358018, acessada em 23/11/2015.

Postado por Maria Cristina Simão

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Sobre Direito e Urbanismo

Grupo de pesquisa interinstitucional do PROURB-FAU-UFRJ que reúne profissionais das áreas do Direito e do Urbanismo.
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3 respostas para Sobre o rio de lama e os moradores de Bento Rodrigues

  1. Eloisa Araujo disse:

    Cristina,
    Você descreve, com muito sentimento, um desabafo de todos nós! Ainda estarrecidos e sem a compreensão do todo, o que afeta a essa comunidade, representa, em grande escala, o descaso com a natureza e com os valores humanos. Muito bom, seu registro!

  2. Caríssima Cristina,

    Sou grato, principalmente, pelas belas imagens que você nos trouxe daquele belo lugar (sem a lama que anda estampada em todos os noticiários!). A vida sempre continua e a beleza é um atributo inseparável da vida. Com toda a certeza aquela comunidade encontrará meios de se reconstruir em todos os sentidos. Como você disse, fiquemos atentos e façamos a parte que nos cabe nessa reconstrução.

    Um abraço carinhoso para você.

  3. Luciano Miguel Moreira dos Santos disse:

    Olá a todos,

    o dano imaterial é irreversível. Vejo todo dia e toda noite os moradores dos distritos nas ruas em frente ao hotéis em Mariana sem nada para fazer.

    E estamos diante de uma encruzilhada. Ao mesmo tempo em que criticamos a mineração preservamos nossas 3 toneladas de minério nas garagens… O que fazer?

    São somente elementos para balizar essa discussão que vai longe.

    Abraço,

    Luciano Miguel

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