Sobre prioridades

Quando David Harvey (2010) esteve no V Fórum Urbano Mundial do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) no Rio de Janeiro em 2010, ao falar sobre as crises do capitalismo e suas relações com a produção de espaço construído, ele sublinhou a situação de países que no âmbito de eventos internacionais realizaram projetos e obras de reestruturação de regiões estratégicas de seus grandes centros urbanos. David Harvey (2010) citou, mais precisamente, Espanha e Grécia. São conhecidas as complexas situações pelas quais tais países passam, e das quais vagarosamente se convalescem, marcados por injustiças e carregando traumas de deslocamento dos pobres e da expulsão de inadimplentes. Seu objetivo era o de chamar nossa atenção ao observar a eufórica movimentação do Brasil em torno da realização da Copa do Mundo de Futebol da FIFA de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 na Cidade do Rio de Janeiro.

As contradições ligadas a tais empreitadas não dizem respeito somente aos seus custos ou à equivocada avaliação de prioridades dos investimentos, uma vez que lidamos com realidades tão inflamadas em setores fundamentais, como saneamento, saúde pública e educação. Trata-se também de um contexto que através de ações combinadas promoveu uma reorganização do valor da terra no país.  Fatores não exclusivamente ligados aos eventos, mas que os contêm em seu conjunto, como a reestruturação e o aquecimento do mercado da construção civil, o incentivo à compra de imóveis e automóveis através da ampliação do acesso ao crédito para as classes de renda média e baixa, a abertura do capital das construtoras na bolsa de valores, a provisão de grandes estoques de moradia através do Programa Minha Casa Minha Vida, guardam relações diretas com uma brutal valorização do solo urbano e do custo da moradia.

Escrevemos há algum tempo um texto neste blog com o título “Sobre nossas cabeças”, com algumas reflexões e uma certa apreensão acerca da histeria imobiliária em curso no Brasil na segunda metade da década de 2000 e início dos anos 2010, a qual, abastecida de enormes quantidades de dinheiro e crédito, ampliava o processo de segregação e produzia edifícios cada vez piores sob os pontos de vista construtivo e da experiência espacial e estética.

Os cenários mudaram. A economia chinesa desacelera e o Brasil está em recessão. Estamos em meio a uma severa crise produzida internamente e externamente, a qual apresentará rebatimentos sobre a dimensão espacial. Se Baudrillard (2003) escreve sobre a queda das torres gêmeas do World Trade Center utilizando a metáfora do suicídio para ilustrar a incapacidade daquela obra de dar conta de tamanha carga simbólica, de tamanho emblema de poder e acumulação, por aqui as caras infraestruturas construídas para os eventos parecem perder o sentido por suas incompatibilidades com nossa realidade. Talvez não tenhamos suicídios, mas teremos pretensiosos emblemas, ao mesmo tempo opulentos e cansados. De fato há alguns equipamentos bastante interessantes e inclusive úteis à população, ou ao menos aos moradores de determinadas áreas das cidades. A questão é: quais seriam as verdadeiras prioridades a serem enfrentadas com orçamentos tão elevados?

A realidade se faz valer e carregamos agora sobre nossos ombros o peso daquilo que pairava sobre nossas cabeças. As atuais restrições aos investimentos não parecem trazer boas perspectivas a uma continuada e adequada provisão de infraestruturas nas periferias, e tampouco à expansão de serviços como os sistemas de Metrô, de ônibus em corredores exclusivos com estações de acesso controlado (o Bus Rapid Transport – BRT) e do Veículo Leve sobre Trilhos (o VLT), por exemplo. Tais restrições poderão também ser apropriadas por discursos de legitimação da intensificação da transferência de responsabilidades dos setores públicos para a iniciativa privada.

Além disso, o que logrou ser erguido precisa de manutenção para seguir operando e/ou sendo utilizado. Vale observar como uma população com baixo poder de compra, ou desempregada, dará conta da manutenção dos estoques produzidos e entregues pelo Programa Minha Casa Minha Vida. Vale também prestar atenção em como os governos em crise darão conta das novas infraestrutura implantadas, e como a iniciativa privada manterá suas atividades e a manutenção de seus novos empreendimentos em uma situação de retração. De qualquer forma, parece difícil compreender a visão do presente daqueles que têm o poder de transformação de nossas cidades em tais proporções através de projetos que olham para o amanhã sem entenderem e aprenderem com o passado. Também parece difícil crer que foram todos pegos de surpresa.

 

Referências bibliográficas

BAUDRILLARD, Jean. Power inferno. Porto Alegre: Editora Sulina, 2003.

HARVEY, David. Painel de abertura do debate ‘Levando adiante o Direito à cidade’. Palestra proferida no V Fórum Urbano Mundial – ONU Habitat . Rio de Janeiro, 23 de março de 2010.

 

Postado por: Wagner Barboza Rufino

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Sobre Direito e Urbanismo

Grupo de pesquisa interinstitucional do PROURB-FAU-UFRJ que reúne profissionais das áreas do Direito e do Urbanismo.
Esse post foi publicado em crise, eventos, justiça, paisagem, projeto urbano, urbanismo. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Sobre prioridades

  1. Anônimo disse:

    Boas reflexões!

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